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RESENHA | Grama de Keum Suk Gendry-Kim

(Sobrecapa: Pipoca & Nanquim)

GRAMA

Tema: Mulheres de Conforto, Segunda Guerra Mundial, Imperialismo Japonês

Grama é uma graphic novel da quadrinista Keum Suk Gendry-Kim, publicada em diversos idiomas e amplamente premiada ao redor do mundo. A obra é baseada na vida de Ok-sun Lee, uma senhora que, quando muito jovem, foi levada pelo Exército Imperial Japonês para servir como “mulher de conforto”.

A obra foi lançada no Brasil em 2020 pela Editora Pipoca & Nanquim e traduzido por Jae HW.

Em muitas obras coreanas é possível encontrar o termo "mulheres de conforto", mas vale ressaltar que essa palavra foi estabelecida como um eufemismo na época para se referir às mulheres escravizadas sexualmente pelos militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.

A história se inicia com Ok-sun Lee, na terceira idade, vivendo com seus filhos e netos em Longjing na China. Após um corte temporal, conhecemos melhor a sua história, desde a sua criação até o dia quando, na juventude, foi levada pelos soldados.

Em 1934, Ok-sun Lee vivia com a sua família na área rural de Busan, época em que a Coreia já era um país colonizado pelo Japão. O seu maior deseja era estudar, assim como os seus irmãos, o que na visão social da época não era permitido, pois as mulheres deveriam trabalhar para garantir os estudos dos irmãos homens para que eles tivessem um futuro bem-sucedido e, consequentemente, um dia, pudessem retribuir à família. Porém, a família dela era extremamente pobre e raramente conseguiam ter o que comer.

Quando ela cresce um pouco mais, a mãe de Ok-sun decide doá-la para outra família, na intenção de que a filha seja melhor cuidada e viva qualquer realidade melhor a escassez que a família enfrenta. Porém, o que eles não imaginavam após a adoção, é que a própria família adotiva teria vendido a jovem para trabalhar em um restaurante. Se antes a jovem já sentia extrema fome, trabalhar em um restaurante e resistir à tentação de comer se torna quase uma guerra psicológica. 

Em 1942, aos 15 anos, enquanto Ok-sun caminhava aos arredores do bairro onde trabalhava, ela é sequestrada pelos japoneses. Ela é levada para uma espécie de campo de concentração e se torna "mulher de conforto", junto a várias outras mulheres. Seus dias se resumiam a ficar esperando nas casas de conforto, em condições precárias, o retorno dos soldados após o serviço. A implementação dessas "casas" ou "postos" era justamente uma organização bem planejada de prostituição onde os japoneses pudessem encontrar lazer à sua maneira e tentar conter a progressão de DST.

Grama é uma obra extremamente relevante para quem deseja conhecer, para além da história pessoal de Ok-sun, o contexto sócio-cultural que envolve as relações entre os países do leste asiático e como os efeitos da guerra refletem a nação que cada país se tornou e como eles abordam esse evento nos dias de hoje. Enquanto a Coreia, a China e Taiwan ainda exigem maior reconhecimento e reparação pelas atrocidades da colonização, as desculpas anunciadas pelo Japão ainda soam insuficientes e divergentes do ponto de vista das vítimas e isso só corrobora as tensões políticas entre os países quando mencionado a Segunda Guerra Mundial.

Além disso, a autora tem muito cuidado ao retratar os temas sensíveis que envolvem a protagonista e como os efeitos da guerra influenciam o percurso de vida dela. Por infortúnio, todas as suas primeiras experiências sociais ocorrem nesse cenário: a primeira menstruação, a perda da virgindade pelo abuso, a descoberta da amizade com Yuna e o luto. Mesmo com tantos momentos difíceis, o leitor anseia pelo momento em que tudo melhora para a protagonista, o que nos mantém fiéis à leitura.

Foi apenas na década de 90 que "mulheres de conforto" foi considerado crime de guerra, o que trouxe debates acerca dos direitos femininos e a exigência de desculpas pelas poucas mulheres que restam vivas e estão confinadas ao pesadelo do que viveram e não tiveram suas histórias reconhecidas e o aguardo da morte. Por mais árduo que seja a leitura, a autora nos mostra como a protagonista se reergue como a grama, um toque de esperança e um lembrete para que a história não se repita.

"O solo, por muito tempo adormecido, vai despertar, e a pequena grama vai se reerguer em meio às folhas secas, queimadas pelo frio. Mesmo derrubada pelo vento e pisoteada por muitos, a grama sempre se reergue. Pode ser que ela te cumprimente de forma tímida, passando de raspão pelas suas pernas." (p.477)

Sobre a autora

(Foto: Reprodução)
Keum Suk Gendry-Kim nasceu em 1971, na região de Jeolla, no sul da Coreia do Sul. Ela estudou pintura na Universidade de Sejong e na École Supérieure Des Arts Décoratifs, em Estrasburgo, França. Atualmente, ela vive com o marido francês na ilha de Ganghwa, próxima à fronteira com a Coreia do Norte. Seu livro "Meu Amigo Kim Jong-un" encerra a trilogia junto às obras 'Grama' e 'A Espera'. A autora recebeu reconhecimento mundial após o lançamento de 'Grama', que lhe rendeu o prêmio Harvey em 2020. Suas obras abordam de forma delicada e realista temas complexos da história e sociedade sul-coreana.

Referências Bibliográficas

GENDRY-KIM, K.S. Grama. 1. ed. Tradução Jae HW. São Paulo: Editora Pipoca e Nanquim, 2020.

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