
FLOR NEGRA
Tema: Diáspora, Trabalho Análogo à Escravidão, Revolução Mexicana
Flor Negra é um romance do autor sul-coreano Kim Young-ha que aborda a imigração coreana para o México no início do século XX. A narrativa acompanha a partida de 1.033 coreanos que, em 1905, deixaram o distrito de Jemulpo, na Coreia, rumo às fazendas mexicanas, motivados pela crescente pressão do domínio japonês. Por meio de uma narrativa plural, o romance constrói um microcosmo da sociedade coreana da época, reunindo membros da elite, soldados desertores, ladrões, órfãos e outros personagens diversos, todos movidos pela promessa de prosperidade em uma terra distante.
O livro foi publicado no Brasil em 2013 pela Geração Editorial, com tradução do inglês por Ana Carolina Mesquita.
A história começa a bordo do navio britânico Ilford, encarregado de transportar mais de mil coreanos para o México. No navio, convivem pessoas de diferentes classes sociais, desde membros da aristocracia coreana até os mais pobres. Contudo, ao longo da viagem, eles percebem que seus títulos e posições sociais já não têm valor algum. Ao chegarem ao México, são vendidos e separados, passando a trabalhar em plantações de sisal, uma planta espinhosa e de difícil manuseio. Aos poucos, percebem que o sonho de enriquecer e, um dia, retornar à Coreia será muito mais difícil do que imaginavam. Eles são forçados a trabalhar por apenas alguns centavos de peso por dia, compartilhando a mesma exploração que os nativos maias, que também foram submetidos às ordens dos senhores de plantações.
Os coreanos estranham aquela terra plana e seca, sem rios nem montanhas, tão diferente de sua terra natal. Sentem-se profundamente injustiçados ao verem seu esforço ser menosprezado e punido com chicotadas pelos capatazes. Além disso, vivem sob a constante ameaça de serem vendidos e transferidos para outras fazendas a qualquer momento, tratados como mercadorias, como se fossem animais.
Um dos principais destaques da obra são os trechos históricos que intercalam a narrativa. O autor revela como o destino desses imigrantes foi selado por acontecimentos políticos e acordos feitos nos bastidores, dos quais muitos deles sequer tinham conhecimento. Um exemplo é o Tratado de Eulsa, que transferiu a soberania diplomática da Coreia para o Japão, reduzindo o Império Coreano a um protetorado japonês. Outro é a Revolução Mexicana, que ocorre inicialmente como pano de fundo da história, mas que aos poucos passa a interferir diretamente na vida dos personagens.
Além desses trechos históricos, o autor dá voz a diversos personagens que representam parcelas significativas da sociedade coreana. Entre eles estão membros de uma realeza decadente, como o clã Jeonju Yi, liderado por Yi Jongdo (primo do imperador), que embarca na viagem na esperança de preservar seu status, mas logo descobre que, tanto no mar quanto nas fazendas, o sangue real não garante alimento nem proteção. Outra personagem central é a jovem Yi Yeonsu, uma adolescente que vê a ida ao México como uma oportunidade de se libertar das amarras sociais impostas pela sociedade coreana da época.
Também somos apresentados ao órfão Ijeong, figura que representa um futuro incerto. Sua trajetória, inicialmente a de um menino sem nome acolhido por vendedores ambulantes, passando a trabalhador na cozinha do navio e depois às fazendas mexicanas, chegando até mesmo à condição de guerrilheiro da Revolução Mexicana, ilustra a maleabilidade da identidade sob a lógica da sobrevivência.
Kim Young-ha, assim, apresenta registros históricos fruto de uma extensa pesquisa sobre a imigração coreana no México, assunto pouco explorado e comentado, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa sensível que explora as cicatrizes da diáspora e a resiliência de um povo que, mesmo distante de sua pátria, insiste em perseverar.
Por que resolvi dar-lhe o nome de Flor Negra? O preto é uma cor criada pela combinação de todas as outras cores. Similarmente, tudo se mistura neste romance — religião, raça, condição social e gênero —, mas o que emerge é algo completamente diferente; a ordem feudal da Coreia entra em colapso de imediato. Contudo, não existe nenhuma flor negra; tal flor só existe em nossa imaginação. Do mesmo modo, o local para onde os personagens do livro esperavam ir era uma utopia que não existia na realidade. Eles desembarcaram no lugar errado, para ali passarem toda a vida.” (autor Kim Young-ha nas Notas do Autor, p.277)
Sobre o autor
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| (Reprodução: British Council Website/autor Kim Young Ha) |
Referências Bibliográficas
KANG, Han. Atos Humanos. Tradução de Ji Yun Kim. São Paulo: Todavia, 2021.

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