NOITE E DIA DESCONHECIDOS
Tema: Sensorial, Não Linear, Inquietante
Noite e Dia Desconhecidos é um romance experimental de Bae Su-ah que investiga as fronteiras entre o tempo e a realidade, construindo uma atmosfera de percepção quase ilusória. A narrativa acompanha uma jovem que trabalha em um teatro para cegos, enquanto imagens do passado, do presente e de um possível futuro se entrelaçam no espaço de um único dia e noite. A descrição pode soar estranha à primeira vista, mas esse estranhamento é intencional: a autora se afasta do senso comum para evocar uma experiência onírica, em que a lógica cede lugar à sensação e à memória.
O livro foi publicado no Brasil em 2021 pela Editora DBA Literatura, com tradução de Hyo Jeong Sung.
Sou até suspeita para falar de Bae Su-ah pois gosto muito do seu estilo de escrita. O primeiro livro que li dela foi 'Sukiyaki de Domingo', que faz crítica à sociedade contemporânea da Coreia e, apesar de ser um livro um pouco difícil de digerir, fiquei com ele em mente por semanas. E é exatamente esse o efeito que 'Noite e Dia Desconhecidos' causa também.
Ayami é uma jovem que trabalhava em um teatro de áudio para cegos. Com o fechamento definitivo do espaço, ela parte em busca de sua antiga professora de alemão e acaba se envolvendo em um romance com um escritor de histórias policiais. No entanto, nada é exatamente o que parece: cenas se repetem em cenários distintos, diálogos retornam sob novos sentidos e a narrativa se desdobra entre a cidade de Seul e a orla de Valparaíso, criando um jogo de ecos e variações.
Aos poucos, a realidade vai se desfazendo. Como a proposta do livro é desmontar qualquer certeza, ficamos curiosos para saber como a história de Ayami se desenvolve.
A autora rompe deliberadamente com a expectativa de que a narrativa “faça sentido” de maneira tradicional, e parte dessa construção nasce, inclusive, de sua inspiração na leitura de um livro sobre o xamanismo siberiano. Os personagens podem ser entendidos como variações de uma mesma pessoa, e o nome “Yam”, associado a espíritos em contextos xamânicos, sugere uma tentativa de comunicação entre mundos ou identidades. Dessa forma, a protagonista parece estar constantemente tentando decifrar as relações entre esses outros “espíritos”, ou talvez esses outros personagens, como se todos coexistissem em um mesmo plano instável e sobreposto.
Não é um livro fácil de explicar e, até mesmo, esta resenha pode soar vaga, mas a leitura é extremamente enriquecedora. Bae Su-ah não parece interessada em oferecer respostas claras ou narrativas fechadas; seu interesse está na experiência, na sensação que permanece depois da última página. É um livro para quem aceita se perder, para quem lê mais com a intuição do que com a necessidade de entender tudo. Ao final, o que fica não é uma conclusão, mas um estado, como um sonho que não lembramos por completo, mas cuja atmosfera insiste em nos acompanhar.
Recomendo a entrevista com a autora mediada por Antônio Xerxenesky e a convidada Luara França.
Sobre a autora
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| (Foto: Bae Su-ah) |
Bae Su-ah nasceu em 1965 e se formou em química pela Ewha Womans University de Seul. Estreou como escritora em 1988 com a obra 'A Dark Room'. Desde 2001, reside na Alemanha. 'Sukiyaki de domingo' foi o seu primeiro título traduzido ao português, seguido por 'Noite e Dia Desconhecidos'.
Referências Bibliográficas
SU-AH, Bae. Noite e Dia Desconhecidos. Tradução de Hyo Jeong Sung. São Paulo: Editora DBA Literatura, 2021.


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