CONTOS DA TARTARUGA DOURADA
Contos da Tartaruga Dourada é uma das obras mais importantes da literatura clássica coreana, escrita no século XV, durante a dinastia Joseon. A obra reúne narrativas curtas que misturam elementos do real e do fantástico, inspiradas tanto pelo confucionismo quanto pelo budismo e taoísmo.
O livro foi publicado no Brasil em 2017 pela Estação Liberdade, com tradução de Yun Jung Im.
Em todos os cinco contos apresentados, vemos encontros sobrenaturais, divindades e passagens que representam episódios históricos da cultura coreana. Os personagens enfrentam dilemas éticos, desilusões com o mundo e conflitos entre desejo pessoal e dever moral. O autor utiliza essas figuras para criticar a corrupção, a hipocrisia social e a fragilidade do poder humano. Além disso, ensinamentos filosóficos e religiosos, como as doutrinas do taoísmo, budismo, xamanismo e neoconfucionismo, complementam o panorama das prosas.
Os personagens entoam poesias e cantos ao longo do livro, trazendo um lirismo que aproxima o leitor de suas emoções, como se toda a narrativa fosse cantada, mas, na verdade, revela como a história era transmitida naquela época.
Na época desses escritos, a Coreia passava por mudanças governamentais que refletiam diretamente na formação e na influência intelectual e pessoal da sociedade. O budismo tinha forte influência no sistema político, administrativo e econômico dos reinos coreanos havia quase um século, e, com a chegada da dinastia Joseon (Reino das Manhãs Calmas, de 1392 a 1897), o budismo é banido e substituído pelo neoconfucionismo, voltado à construção de um Estado baseado nos princípios do sábio Mêncio, filósofo chinês do século IV a.C. e seguidor do confucionismo.
Essa transição causa um choque de realidade interno ao autor, e infere-se que seus contos eram repassados oralmente para atribuir autoridade moral aos governantes. Muitos contos apresentam finais tristes e ambíguos, reforçando a visão melancólica e pessimista de Kim Si-seup sobre a sociedade de seu tempo. Assim, o livro se torna uma porta de entrada para compreender os valores, crenças e tensões da Coreia medieval, em que a elite política utilizava a religião como forma de controle social.
Sobre o autor
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| Retrato de Kim Si-seup (1435-1493) |
Kim Si-Seup (1435–1493) entrou para a história da Coreia como o “gênio desafortunado” do Reino de Joseon (1392-1897). Diz-se que ele aprendeu os caracteres chineses aos oito meses de idade, e compôs o primeiro poema aos três anos. Sua fama alcançou os ouvidos do Grande Rei Sejong (1397–1450) que presenteou o menino Kim, ainda com 5 anos, com uma peça de seda. Kim Si-seup continuou seus estudos confucionistas e budistas, com o intuito de ser um burocrata do reino, como cabia aos filhos em famílias nobres. No entanto, em meio às crises da corte, incluindo um golpe de Estado, ele se tornou um peregrino – o sábio denominava-se “forasteiro” e dizia que se sentia como alguém a tentar encaixar uma estaca quadrada em um buraco redondo. Ele voltou à corte e ajudou na tradução do cânone do budismo mahayana para a escrita coreana. Em seguida, continuou sua peregrinação por dois anos, até construir uma cabana na Montanha da Tartaruga Dourada, onde viveu por sete anos e quando acredita-se que estas histórias foram escritas. Ele passou o resto da vida em conflito entre as demandas de que ele se tornasse um homem forte do reino e sua própria vontade de isolamento. Dezoito anos após sua morte iniciou-se, a mando do rei, a coleta de suas obras para publicação, ocorrida pela primeira vez em 1521 e mais várias vezes nos séculos seguintes. (Fonte: Estação Liberdade)
Referência Bibliográfica
SI-SEUP, Kim. Contos da Tartaruga Dourada. Tradução de Yun Jun Im Park. São Paulo: Estação Liberdade, 2017.


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